Como calcular estoque mínimo para revenda
Estoque mínimo é o saldo abaixo do qual você corre risco de faltar antes de a reposição chegar. Ele não é um número redondo escolhido por hábito — é uma conta com três variáveis, e a terceira é a que quase todo mundo ignora.
As três variáveis
Consumo médio. Quanto sai do item por dia, em média, num período representativo.
Prazo de reposição. Quantos dias entre emitir o pedido de compra e a mercadoria estar disponível para venda. Inclui o tempo do fornecedor, o transporte e a conferência na entrada.
Variação. O quanto o consumo e o prazo oscilam. É a variável esquecida, e é ela que define a margem de segurança.
A conta básica
Estoque mínimo = consumo médio diário × prazo de reposição em dias
Um item que sai 12 unidades por dia, com fornecedor que leva 10 dias, tem consumo de 120 unidades durante a reposição. Esse é o piso absoluto — e é insuficiente, porque assume que nada varia.
Acrescentando a margem de segurança
A margem existe para absorver dois riscos: vender mais que a média, e o fornecedor atrasar.
A forma prática de dimensioná-la é olhar o histórico, não escolher um percentual.
Para a demanda: pegue as últimas 12 semanas de saída daquele item. Qual foi a maior semana? Se a média é 84 por semana e o pico foi 118, a demanda varia cerca de 40% acima da média.
Para o prazo: pegue as últimas compras. Se o fornecedor promete 10 dias e entregou em 10, 12, 9, 14 e 11, o pior caso observado é 14 — 40% acima do prometido.
Com esses dois, o estoque mínimo passa a ser calculado sobre o pior caso razoável, não sobre a média:
Consumo no pico diário (17 unidades) × prazo no pior caso (14 dias) = 238 unidades
Quase o dobro do piso. E é esse número que evita ruptura.
Ajustando pelo custo de faltar
Nem todo item merece a mesma proteção. A pergunta que dimensiona é: o que acontece se faltar?
Item que o cliente substitui sem reclamar: margem de segurança pequena. Faltar custa uma venda.
Item que faz o cliente comprar tudo em outro lugar: margem generosa. Faltar custa o pedido inteiro, e às vezes o cliente.
Item de giro baixo e valor alto: margem pequena, mesmo com custo de faltar relevante. Carregar estoque caro de item que sai devagar consome capital de giro que faz falta em outro lugar.
Item perecível: margem pequena por natureza. Aqui, sobrar custa mais que faltar.
Esse ajuste é qualitativo e é onde entra o seu conhecimento do negócio. A conta dá o número; o julgamento decide de que lado errar.
Um exemplo completo
Item: caixa de fermento biológico, 20 unidades por caixa.
- Saída média: 9 caixas por dia útil
- Maior saída diária observada em 3 meses: 14 caixas
- Prazo prometido pelo fornecedor: 7 dias
- Pior prazo observado: 11 dias
- Consequência de faltar: alta — cliente de panificação compra tudo em outro lugar
Estoque mínimo pelo pior caso: 14 × 11 = 154 caixas
Ponto de reposição: quando o saldo chegar a 154, emitir compra.
Quantidade a comprar: depende do lote do fornecedor e do desconto por volume, mas o piso é o consumo esperado até a próxima reposição confortável.
Com que frequência revisar
Estoque mínimo calculado uma vez e nunca revisto envelhece de três formas: a demanda muda, o fornecedor muda de comportamento, e o mix de clientes muda.
Uma rotina que funciona: revisar itens de curva A a cada trimestre, itens B a cada semestre, e itens C uma vez por ano ou quando algo chamar atenção.
E revisar imediatamente quando acontecer qualquer uma destas três coisas: entrou um cliente grande, o fornecedor mudou o prazo, ou você teve ruptura naquele item.
Os erros que mais custam
Usar média sem olhar o pico. É o erro dominante. Média protege metade do tempo, por definição.
Usar o prazo prometido em vez do observado. O fornecedor não mente; ele só não controla tudo.
Aplicar o mesmo percentual a todos os itens. Um percentual único ignora que o custo de faltar é diferente item a item.
Confundir estoque mínimo com quantidade a comprar. O mínimo diz quando comprar. Quanto comprar é outra conta, que considera lote, desconto e custo de carregar.
Não recalcular depois de uma ruptura. Ruptura é dado. Se faltou, o mínimo estava baixo — ou o prazo mudou e ninguém percebeu.
Onde isso vira rotina
A conta é simples; o difícil é mantê-la viva para centenas de itens. Isso só sobrevive quando o consumo médio e o prazo de reposição saem do próprio histórico de vendas e compras, sem alguém compilar planilha.
O restante do controle está no guia de controle de estoque para distribuidora e revenda.